Um lugar pra publicar os textos que venho escrevendo nos últimos tempos. Travo uma luta danada com a poesia, ou com a famosa musa, que de inspiradora não tem nada. Vez em quando, vêm alguns insights. Então escrevo. Assumo: sou bissexto. Talvez trissexto.

Friday, March 31, 2006

O MENINO DOS DESEJOS ESTRANHOS - PARTE UM

Duas vezes por dia o menino perguntava ao pai se podia ir ao bar tomar um copo de chope e o pai respondia por trás do jornal do dia anterior que não: criança não pode beber. Mas o garoto de sete anos era insistente e não admitia que o pai, tão magro e insosso pudesse, e ele, gordo e bonito como a mãe, ficasse debaixo daquela proibição.

Via nos desenhos animados crianças do mesmo tamanho que ele, bebendo copos enormes de chope. Então a mãe lhe perguntou em que horário passavam tais desenhos, pois ela mesma nunca ouvira falar de crianças tomando bebida alcoólica. O menino não lembrava, mas isso não tem importância, dizia, eu quero tomar chope, eu quero tomar chope, eu quero tomar chope.

Houve um dia, depois de muitos dias de aborrecimento, que a mãe não suportando mais aquela lamúria, pegou um chinelo de couro e sapecou nas pernas do menino. O menino chorou, sentado num cantinho de seu quarto, encolhido como um bichinho indefeso.

O pai estava morrendo de compaixão e se perguntava se não estavam, a mulher e ele, sendo demasiadamente rígidos com uma vontadezinha boba de criança, afinal, o que é que tem um copozinho de chope? Não teve, no entanto, coragem de falar isso com ela, que estava brava, cortando tomates maduros na mesa da sala e olhando a novela na televisão.

Thursday, March 30, 2006

O MAGO DAS PALAVRAS: CAIO FERNANDO ABREU

Tenho uma profunda admiração pelo escritor Caio Fernando Abreu. Meu primeiro contato com este genial contista deu-se há alguns anos, quando comprei em Feira de Santana o livro "Os dragões não conhecem o paraíso". Durante a viagem de ônibus, eu lia aqueles contos maravilhosos, cheios de vida e significado. Depois li alguns contos esparsos em antologias. Lendo ultimamente sobre sua vida conturbada, aumenta mais ainda a admiração. Leiam Caio Fernando Abreu, um mago das palavras.

Wednesday, March 29, 2006

Os Livros

Outro dia uma amiga perguntou-me o que eu estava lendo. Citei quatro livros: “Os machões não dançam”, do Mailer; “Angústia”, de Graciliano; “Los Alamos”, de Martin Cruz Smith e a Bíblia Sagrada. Esse é meu método de leitura. Vou tecendo uma rede, lendo alguns capítulos de um hoje, capítulos de outro amanhã, relendo tudo vez em quando. Não gostei muito de “Angústia” porque, na edição que tenho em mãos não há uma clara divisão capitular. Acho que os capítulos nos ajudam quando o livro está chato. Lemos até o ponto final e guardamos para amanhã, além de podermos dizer aos amigos que estamos no capítulo tal e etcétera. Meu filho Felipe gosta de livros de capítulos curtos. Como eu. Já Eliene, minha esposa, não se importa com essas bobagens. Ela pega o livro e lê, alucinadamente, sem parar, distante de todos nós. Não importam a quantidade de páginas ou o tamanho das letras, coisas que pra mim são fundamentais. Vejam que tenho besteira com os livros da Companhia das Letras. Gosto do design. É uma coisa que dá gosto de pegar. O livro. Não quero o livro somente pra ler. Quero o livro também para manusear, cheirar, passar as páginas rapidamente, como um crupiê que embaralha suas cartas. Quero o livro pra ler aos pouquinhos, como fiz com “Amor”, de Toni Morrison. Quem consegue comer aquele livro? Seria uma pornografia, um acinte ao bom gosto, faze-lo. É livro para ser lido aos poucos, saboreando, guardando para depois, como quando eu era menino e guardava um pedacinho de goiabada feita por Tia Pedra; guardava para me deliciar depois e fazer ironia com meus iramos gulosos que comiam tudo de vez. Os livros são meus amigos há muitos anos. Hoje faço uma rigorosa seleção para ler. Escolho o livro muitas vezes pela capa. Ou pelo título. Não li o livro da Bruna Surfistinha, mas pense no título: “O doce veneno do escorpião”. Que sacada legal, inteligente! Não sei como é o livro. Aliás, não gosto muito de livros-depoimento. Mas o título é demais. Gosto de livros velhos. Tenho uma edição de “No caminho de Swann”, do Proust, de 194... Aquelas páginas amareladas, aquele cheiro de antiguidade, de coisa genuína. Sem os livros o mundo seria uma grande merda.

Monday, March 27, 2006

POEMA PARA HOJE

MARILIN MONROE

era
uma
vez andy warhol
e uma cara
rosa
azul
amarela
vermelha
e cinza
de marilin monroe.

era
uma
vez
a minha cara
cinza cinza cinza cinza cinza
diante
da deslumbrante
marilin monroe.

era uma vez
escutando rock in
roll.
era uma vez:
marilin
flor.

Friday, March 24, 2006


SETE POEMAS PARA MEUS AMIGOS

CAFÉ

(Para Eliene)

trouxe uma xícara de café fumegante
e um poema feliz
o livro novo de adélia prado
e deu-me um beijo nos lábios.
perguntou se eu queria o sol
e abriu as venezianas cinzentas:
trouxe pétalas de sol e rosas
num singelo vaso chinês.
ofereceu-me estrelas,
meio dia almoço e presença
comendo no mesmo prato.
e enfim chegou a noite:
dei meu sol pro horizonte.
ela abraçou-me sorrindo
e toda a casa ficou luz.
trouxe uma xícara de café fumegante
e um poema feliz
como posso dormir triste
se tenho a mulher que eu quis?
ela me toma no colo
me acarinha qual menino
me enche a boca de beijos
e reclama das ausências.
ela, a mulher que eu quis,
com meu café fumegante
e um poema feliz



LIBERDADE


um dia deram-lhe as chaves da casa.
mistério foi abrir a porta
e bater asas.




O VASO




o vaso sobre a mesa
contém segredos.

as mãos que o modelaram:
forma robusta
cerâmica rubra
as mãos que o pintaram:
suave paisagem
vespertina,

onde andarão?

o vaso sobre a mesa
testemunha muda.

quantas mãos o tocaram
em séculos de presença?



O PÁSSARO



penso num pássaro emp
alhado, cujos
olhos vivos perscrut
am a
solidão.

penso num páss
aro sem asas
que descobre de
repente
a porta/aberta do
alçapão.

penso num pássaro
mudo
que encontr
a dentr
o de si um ala
úde e uma
canção.

penso num pássaro
que.voa
c
o
m
o
quem
caminha nas nuv
ens, mas quer
somente seu
chão.



POETAS



walt whitman esparrama-se
na relva, folheando um livro
disp
lic
ent
ement
e.
elisabeth veiga lê
no
r
o
s
t
o
de whitman
um poema ausente.

heitor ferraz será um d
ia o maior poeta brasile
iro vivo.

com um poema
tododia
me
desogivo.



BALADA DO AMOR DE ROSA MARIA



aquele abraço tímido:
você tão frágil.
sou.
fomos viver na mesma casa.

depois você morava em você
eu morava em mim.

hoje, você em roma
eu, em paris.




CHUVA



Quero a música dos sapos
Na noite chuvosa &
fria.

Teu corpo quente em meu corpo
Conversa besta &
alegria.

Quero esta noite completa
Que adormece &
silencia.

Pra cariciar teu rosto
Na ruga que
principia.

BLOG DO POETA

Este é um lugar de poesia, conto, histórias alegres e tristes. Venha comigo nesta jornada pela sensibilidade. Grande abraço.