Um lugar pra publicar os textos que venho escrevendo nos últimos tempos. Travo uma luta danada com a poesia, ou com a famosa musa, que de inspiradora não tem nada. Vez em quando, vêm alguns insights. Então escrevo. Assumo: sou bissexto. Talvez trissexto.

Wednesday, March 29, 2006

Os Livros

Outro dia uma amiga perguntou-me o que eu estava lendo. Citei quatro livros: “Os machões não dançam”, do Mailer; “Angústia”, de Graciliano; “Los Alamos”, de Martin Cruz Smith e a Bíblia Sagrada. Esse é meu método de leitura. Vou tecendo uma rede, lendo alguns capítulos de um hoje, capítulos de outro amanhã, relendo tudo vez em quando. Não gostei muito de “Angústia” porque, na edição que tenho em mãos não há uma clara divisão capitular. Acho que os capítulos nos ajudam quando o livro está chato. Lemos até o ponto final e guardamos para amanhã, além de podermos dizer aos amigos que estamos no capítulo tal e etcétera. Meu filho Felipe gosta de livros de capítulos curtos. Como eu. Já Eliene, minha esposa, não se importa com essas bobagens. Ela pega o livro e lê, alucinadamente, sem parar, distante de todos nós. Não importam a quantidade de páginas ou o tamanho das letras, coisas que pra mim são fundamentais. Vejam que tenho besteira com os livros da Companhia das Letras. Gosto do design. É uma coisa que dá gosto de pegar. O livro. Não quero o livro somente pra ler. Quero o livro também para manusear, cheirar, passar as páginas rapidamente, como um crupiê que embaralha suas cartas. Quero o livro pra ler aos pouquinhos, como fiz com “Amor”, de Toni Morrison. Quem consegue comer aquele livro? Seria uma pornografia, um acinte ao bom gosto, faze-lo. É livro para ser lido aos poucos, saboreando, guardando para depois, como quando eu era menino e guardava um pedacinho de goiabada feita por Tia Pedra; guardava para me deliciar depois e fazer ironia com meus iramos gulosos que comiam tudo de vez. Os livros são meus amigos há muitos anos. Hoje faço uma rigorosa seleção para ler. Escolho o livro muitas vezes pela capa. Ou pelo título. Não li o livro da Bruna Surfistinha, mas pense no título: “O doce veneno do escorpião”. Que sacada legal, inteligente! Não sei como é o livro. Aliás, não gosto muito de livros-depoimento. Mas o título é demais. Gosto de livros velhos. Tenho uma edição de “No caminho de Swann”, do Proust, de 194... Aquelas páginas amareladas, aquele cheiro de antiguidade, de coisa genuína. Sem os livros o mundo seria uma grande merda.

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