O MENINO DOS DESEJOS ESTRANHOS - PARTE UM
Duas vezes por dia o menino perguntava ao pai se podia ir ao bar tomar um copo de chope e o pai respondia por trás do jornal do dia anterior que não: criança não pode beber. Mas o garoto de sete anos era insistente e não admitia que o pai, tão magro e insosso pudesse, e ele, gordo e bonito como a mãe, ficasse debaixo daquela proibição.
Via nos desenhos animados crianças do mesmo tamanho que ele, bebendo copos enormes de chope. Então a mãe lhe perguntou em que horário passavam tais desenhos, pois ela mesma nunca ouvira falar de crianças tomando bebida alcoólica. O menino não lembrava, mas isso não tem importância, dizia, eu quero tomar chope, eu quero tomar chope, eu quero tomar chope.
Houve um dia, depois de muitos dias de aborrecimento, que a mãe não suportando mais aquela lamúria, pegou um chinelo de couro e sapecou nas pernas do menino. O menino chorou, sentado num cantinho de seu quarto, encolhido como um bichinho indefeso.
O pai estava morrendo de compaixão e se perguntava se não estavam, a mulher e ele, sendo demasiadamente rígidos com uma vontadezinha boba de criança, afinal, o que é que tem um copozinho de chope? Não teve, no entanto, coragem de falar isso com ela, que estava brava, cortando tomates maduros na mesa da sala e olhando a novela na televisão.

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